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                                                    Beleza e miséria cultural

             (Tom Chaplin, vocalista da banda Keane, em 2006; pra você ele está gordo? Para mim, ele está lindo!)

 

                  Segue um texto escrito às pressas, porém motivado por um dado do real. Tem a ver com aquela velha frase: nossa, como você engordou!  (Afe!)

 

                      O que é a beleza física? Quais são os parâmetros que definem que uma pessoa é bela e outra não? Será que a beleza está mesmo nos olhos de quem vê?

                 Estudos recentes mostram que os padrões de beleza vêm mudando drasticamente durante as últimas décadas. Houve um saldo significativo por volta dos anos 50/60 do século passado, quando então as mulheres, mais relacionadas à moda e ao consumo, do que os homens, passaram a ter seus corpos moldados pelos costureiros — que, como todos sabem, a grande maioria é homossexual, o qual, notoriamente, tem como padrão o ideal do corpo masculino — o objeto de desejo. Ou seja: quadris retos e pouco busto. (E, por favor, não venham falar de politicamente incorreto ou que sou preconceituosa, porque sei que não sou, ok.?) Alguém se recorda da Twiggi, modelo inglesa? (Os quadris retos permaneceram, mas agora veio a moda do silicone — até quando?)

                 Atrás das tendências da moda, vieram as questões ligadas não só à saúde, mas, principalmente, a um ideal de beleza a ser perseguido. Atualmente, a mulher excessivamente magra está em voga. Alguém já viu uma concorrente de Giselle Bünchen ser uma gordinha ou, a chamada "cheinha"? Não. Para ser bela, desfilar a beleza das roupas, é preciso ser magra. E o que fazem as pessoas que consomem moda ou são massacradas pela indústria cultural, sem nada questionar? Querem ser magras, claro! Pois ser magro, quer dizer mais ainda do que ser belo, quer dizer: sou aceito! E quem não quer ser aceito, amado? Todos querem ser amados. E aparecem doenças como a bulimia, a anorexia, principalmente entre as meninas, cada vez mais... em moda! Querem moda? Convivam com isto, papais e mamães.

                 A moda está ligada à necessidade de mudança de parâmetros e tem por base o consumo. Se no ano passado o que se viam, por exemplo, eram bolinhas e listras nos tecidos, este ano pode ser que vejamos estampas florais como tendência. Assim, todos correm renovar seus guarda-roupas e, claro, a indústria da moda sai lucrando com isto. Mas o que isto tem a ver com a beleza? Muito pouca coisa. Ou tudo, dependendo do ângulo sob o qual o assunto é visto e analisado. Claro que se não renovássemos nossos guarda-roupas, morreríamos de tédio. (Mas alguns já não morrem, só que de miséria, na grande maioria dos países que fazem parte do planeta?)

                A beleza física é algo que está no campo do visível. A beleza interior, não. Já que vivemos numa sociedade de consumo e praticamente tudo se tornou objeto, o que eu vejo, em tudo, é objeto. Falou-se até na mulher-objeto e fala-se mais modernamente, também, em homem-objeto. Quando as revistas estampam homens e mulheres com corpos bem torneados, eles se tornam objetos de admiração e, indiretamente, de consumo. Se eu tenho um corpo socialmente aceitável, isto quer dizer, mais uma vez, que serei aceito! E, portanto, amado! E a cena: todos entram alegremente no restaurante e fazem os seus pedidos... e ela? Uma alfacezinha, alguns grãos de arroz... (o negócio é ser magra, magra, magra! Para ser aceita e amada, claro! De que assunto as pessoas médias/medianas falam quando se referem às outras? Fulana? Achei ela magra. Sicrano? Está bem gordinho! E por aí vai. Será que podemos relacionar tudo isto, também, a uma certa miséria cultural? A um pensar pequeno? A um pensamento estreitamente ligado ao mundo do visível, relegando a segundo plano o mundo das idéias e por conseguinte, da cultura? Entendendo cultura por produção de linguagem do homem relacionada, em alguma instância, com a arte e à produção de pensamento?

               Se você tem amigos ou parentes com os quais passa o dia conversando sobre temas ligados à cultura — um filme, um livro, um museu — onde sobre pouco ou nenhum espaço para a análise física, para a análise corpórea de fulano ou sicrano, você, a meu ver, é um sortudo. Se você tem um parente que, quando encontra com você, diz: como você está gordo! Pode acreditar que ele está fazendo a seguinte análise: eu me mato na academia para ficar magro, deixo de comer o que gosto para ficar magro e agora ele me aparece gordo? Como assim???????? Ele não tem espelho, será que não se enxerga, será que não percebe que está gordo? (Será que ele não percebe que está.. fora dos ditos padrões?) Resposta: sim, todos temos espelho em casa e sabemos se estamos gordos, magros, esquálidos, cheinhos, obesos... assim como nosso nariz está reto ou nossas sobrancelhas estão finas ou grossas. Bom, menos o doente que tem uma disfunção (mais comum, depois da moda da magreza como padrão de beleza) que distorce o que ele vê no espelho, o que tem ocorrido com nossas adolescentes, com freqüência: elas se acham gordas, quando, em termos médicos, estão dentro do peso. Mas elas não querem ser magras; querem ser magérrimas! Enfim, a resposta é: sim, nós temos espelho e não somos idiotas! (Talvez o idiotizado seja aquele que só consiga ver beleza no campo do visível — será que não?)

               Você vai assistir a um filme com alguém e, ao sair, ao invés da pessoa discutir o filme em termos mais profundos, ela apenas diz: viu como a Julia Roberts tá mais gorda nesse filme? Viu como a Marilyn engordou depois daquele outro filme que fez antes deste? E por aí vai. É comum escutar isto. Será que as pessoas estão sem bagagem cultural para discutir outras coisas? Mais relevantes, do que a massa corpórea dos outros?

              Do que falam as revistas de fofoca? Do físico dos outros, fundamentalmente. Você já viu alguma revista de fofoca comentar que tal atriz é muito inteligente? Não, não é. Aliás, ser inteligente ainda é uma qualidade muito mal vista para os que estão ligados à indústria do consumo. Pois quem é inteligente consome menos, claro, pois não consome o que é supérfluo!

              Infelizmente, as estatísticas também mostram que pobres ficam acima do peso por serem mal orientados na hora de se alimentar. Isto é outra questão. Aqui, estou falando de gente com poder aquisitivo, mas que não consegue questionar o que lhes foi imposto com o decorrer dos anos pela indústria do consumo. Quando vemos revistas ou colunas sobre a classe média alta, a maioria é magra. Gastam calorias nos clubes, nas academias, em esteiras, pedalando, fazendo natação — enfim, investem numa boa parte de um tempo útil, nisto. Como que numa obrigação, pois tem que caber no vestido — já ouviram essa frase? É mais importante que uma roupa caia bem, do que suas idéias e comportamento propriamente ditos. Vê-se, com freqüência, uma inversão de valores. O outro não é valorizado pelo o que ele possui enquanto caráter ou educação, mas o que ele apresenta (e representa, enquanto valor social) enquanto cartão postal, ou seja, no campo do visível. Miséria cultural...

              Mas, afinal, o que é a tal beleza física? Não há dúvida que o gosto pode ser manipulado e a indústria o faz e o faz bem. Antigamente as crianças brincavam com bebês gordinhos com cara de nenês saudáveis e hoje em dia elas querem.... Barbies! O chamado padrão americano — pois não é de lá que veio a tal boneca? Valorizada até por adultos infantilizados, que as colecionam?

              Lindíssimo, para quem sabe ver e tem bagagem cultural, As Três Graças. No filme espanhol Pelos Meus Olhos, o marido pergunta à esposa o que ela vê naquela pintura onde uma das mulheres tem celulite e a outra parece uma sapatona. Para este homem ignorante, só o visível conta; só o padrão — ele não consegue ir além, por falta de bagagem na área do sensível. Seria ele um consumidor dos livros de Paulo Coelho ou seja, faz ele parte da grande massa que só consegue consumir o que é medíocre, e o que já está consagrado como "bom"? Assim como dentro desse parâmetro, entra também o "ser magro"?

              Enfim, este é um assunto sem fim. Mas uma coisa é certa: é bom ter saúde e não estar acima do peso, claro. Mas, se você está fora dos padrões, não se desespere. O que seria do verde, se todos gostassem do amarelo? Dê uma banana para os padrões e tente ser feliz vivendo a diferença. Com saúde, claro. Mas deixe aos bulímicos e anoréxicos que se privem de chocolates e outras gostosuras. Seja inteligente. Dê uma banana para os chatos e os padrões. Como diz o Jô Soares, sou gordo mas sou feliz!

P.S.: Em tempo, esta que vos escreve está oito quilos acima do peso, tem espelho, é chocólatra, caminha todos os dias e faz alongamento duas vezes ao dia e não se sente rejeitada socialmente — apesar de não se sentir, por outro lado, aceita e amada. No entanto, sabe-se feliz por ter tido a sorte de ter descoberto que, além do visível, há o campo do invisível: a arte, a filosofia, uma expressão inusitada e poética de um gato que dorme; a poeticidade de uma imagem cinematográfica. Quanto aos medíocres, está dando uma banana, fruto que despreza por ser alérgica a ela, para todos eles. E sonha com o dia que deixem a sua massa corpórea em paz. E privilegiem nela outras qualidades — possivelmente, para os medianos, até agora, invisíveis. A estes, meu grito furisoso, em outra língua, para não parecer pouco educado... : give me a break and damn you!

 



Escrito por isa às 21h51
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            Acabo de assistir ao filme Bodas de Papel, de André Sturm. André costumava freqüentar a Cinemateca no começo dos anos noventa e, pouco depois, comprou um cinema no Bexiga, acho que o Cine Bexiga, mesmo, e creio que mudou de nome, mas não me lembro mais. O que me lembro dele é algo muito mais pessoal, como a morte trágica de alguém próximo a ele e que também freqüentava a Cinemateca, quando esta era em Pinheiros, próxima à Vila Madalena. Passei anos vendo os melhores filmes do mundo, ali. Dreyer, Ozu, Mizoguchi, Bergman, Resnais... e mesmo filmes raros vindos da Cinemateca do Uruguay -- então conheci bem seus freqüentadores. Bons tempos. De qualquer modo, não vi o primeiro filme de André e não posso comparar para falar de um estilo seu -- o que seria bom. Mas o que vi em Bodas de Papel me deixou intrigada, já que tenho como referência que foi rejeitado pela crítica e não muito bem aceito por parte do público (ao menos, foi o que li via internet). Mas com as artes no Brasil é preciso se ter muito cuidado; muitas vezes tudo aparece de maneira invertida, vide a má crítica (de alguns críticos e de peso) ao belíssimo Luz Silenciosa -- como coloquei aqui, um dos melhores filmes da década, até agora (fortemente inspirado em Dreyer, mas, e daí?).

          O que achei bem consistente e convincente em Bodas de Papel foi o relacionamento amoroso do casal, da artista plástica brasileira e o arquiteto argentino. No entanto, eu me ressenti de alguns momentos de maior dramaticidade, reservado para o final, com a morte do rapaz, Miguel. Parece que a tal virada demora um pouco a acontecer, mas, enquanto isto, o que o espectador tem são cenas bastante agradáveis de se ver de uma cidadezinha no interior de São Paulo, Candeias (que, ao que parece, teve sua locação principal em Monte Alegre, como se vê pelos créditos) -- e o que se tem é mais que isto, é todo um bom gosto na decoração de uma casa, com móveis que muito provavelmente a produção garimpou na Vila Madalena, em São Paulo, bairro aliás que aparece quando há um lançamento de livro na Livraria da Vila, forte ícone do bairro. De qualquer modo, a produção se esmerou na composição do look artesanal/interiorano... às vezes até demais, pois o bar em que trabalha Walmor Chagas carece de um pouco mais de autenticidade, extremamente asséptico, com absolutamente nada fora do lugar -- nem um lápis jogado sobre o balcão, sequer. Dignas de nota as locações nas proximidades do Trianon, de onde o rapaz escreve à namorada -- acertadíssimas. O paulistano reconhece ali um lugar de intimismo agradável que, só quem mora na cidade o identifica, mas, ao mesmo tempo, é um terreno que, mesmo para quem nunca esteve lá, é colírio para os olhos.

          Helena Ranaldi e o ator argentino, que trabalhou com Almodóvar em Fale com Ela, no entanto, não decepcionam, estão muito bem e confortáveis em seus papéis. Nas primeiras cenas, praticamente não há conflito, o que pode levar o espectador a se entediar, mas também é algo que deixa com que se respire aliviado, pois ultimamente o que se tem são filmes que revelam um estresse exagerado, altas cargas dramáticas, deixando o espectador, quando não em suspense, em estado de contida aflição. Que não se espere isto do filme de André... o trem corre suave nos trilhos e o barco desliza em águas calmas -- até a morte de Miguel. Que aliás, não vem abalar muito o antigo cenário, pois a artista plástica continua a revê-lo em pensamentos e... o que seria aquilo, um sonho, um delírio? O filme não nos dá pistas. Miguel retorna, bate à porta como se nunca tivesse "ido embora" e conversa com sua antiga namorada com se a tivesse visto no dia anterior. O mesmo se passa com ela. O que deixa o espectador confuso, mais do que surpreso e eis aí a minha crítica; acho que de, algum modo, uma narrativa tem que direcionar o que está sendo mostrado para o espectador; acho uma falha terrível quando isto não acontece. Não se trata de subestimar a inteligência do espectador, mas sim de uma condução ficcional que não o deixe perdido, pois, apesar de ficção, quando assistimos a um filme, mergulhamos na estória como se ela fosse real, claro... e seguimos um ponto-de-vista; um caminho, dado pelo filme. Se isto se perde (e não estou falando aqui de cortes abruptos propositais, que aparecem em alguns filmes de arte de maneira bem articulada), o espectador também se perde e, aí, sim, é capaz de achar que o estão fazendo de bobo. Foi o que me aconteceu e tenho uma bagagem que me permite separar o que é ambíguo do que não é, num filme. Lembremos de Match Point, de Woody Allen e a cena dos que já morreram, na cozinha. Claro que quanto ao filme de André, sabemos que Miguel não voltara da terra dos mortos, mas ao menos poderia haver algum indício de sonho ou de memória; este nos é dado, por exemplo, quando a personagem de Helena Ranaldi vai pegar a bola para algumas crianças, em seu quintal e vê o vaso de orquídeas. A questão da lembrança fica muito bem resolvida, depois, quando ela está com a bola nas mãos e um dos meninos diz: e aí, dona e a bola? Ou seja, ela estava com o pensamento longe. Mas, na cena em que Miguel supostamente retorna, ficamos sem entender nada, porque o filme não nos quis dar indício algum. E ficamos perdidos, acreditando em espíritos ou memória, seja qual for a opção, mas que não é nossa e sim da maneira errônea, a meu ver, como a cena foi conduzida -- ou, o que não veio a seguir. Sim, mais tarde a impressão se desfaz, mas até isto acontecer, já fomos esquecidos, desrespeitados, enquanto espectadores. Ao menos, foi a impressão que me passou, neste momento. Não a de uma confusão saudável, se me entendem... nada a ver com meu direito de optar ou pensar o que quero, mas sim uma confusão que pertence à má condução da narrativa, mesmo.

          Mas não se deve crucificar todo um filme somente por uma cena; digamos que é um trabalho despretensioso e tem que ser visto como tal. (Lembrei-me de um filme italiano muito semelhante, chama-se, se não me engano, Viagem à Toscana. Não dá para esperar nenhuma força dramática do filme, pois seus personagens não a têm). Os personagens de André, aliás, casam-se bem em temperamento e não há praticamente conflito entre eles, a não ser quando Miguel deixa, um dia, de telefonar à namorada, para dizer que não chegaria para o almoço. No mais, é barco navegando em águas calmas. Até aí, tudo bem. Mas que não se espere mais que isto deste filme. Isto é bom, isto é ruim? Há obras que são dramáticas, outras, singelas. Bodas de Papel não é nem um, nem outro, mas fica próximo do segundo, pelo seu cenário de interior e a calma e o ajuste entre os amantes. Mas não é um filme para ser revisto, certamente -- simplesmente porque é um filme por demais correto e nada, nada apaixonante. Simplesmente por isto. Como se diria popularmente, faltou uma pegada mais forte... É isto. Bodas de Papel, eu diria, é um filme... legalzinho... e nada mais que isto.

                 Em tempo: lembro-me de um colega de faculdade, que hoje é apresentador de um programa de tevê à noite, empresário e muito rico; o rapaz ia impecável à aula, diríamos que havia se vestido para um jantar elegante às sete horas da manhã. Usava um mocassim de verniz, terno, gravata, o cabelo sempre arrumadinho -- parecia estar num curso de advocacia e não de jornalismo. Aquele rapaz tinha uma coisa tão certinha e enjoada, tudo nele estava sempre tão impecável, nos lugares, que ninguém gostava dele. Faltava alguma coisa de interessante nele. É só um recorte daquele sentimento, que todos tínhamos e que, creio, cabe bem aqui.



Escrito por isa às 15h59
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                                            A banda Keane em novo visual

 

                A banda britânica Keane dá uma reviravolta na carreira, com o lançamento hoje do single Perfect Symmetry, disponibilizando para os fãs em seu site oficial uma das músicas, Spiralling, com forte ritmo dançante. Em entrevista , o vocalista Tom Chaplin fala da influência de Bowie e Talking Heads, entre outros ícones dos anos oitenta. Eu me lembro bem de Talking Heads; um amigo muito íntimo era fã dessa banda e trazia uns elepês lá para o meu apê para a gente ouvir, enquanto juntávamos material em xerox (não havia ainda o computador caseiro...) sobre cinema, literatura, fotografia, garimpados em bibliotecas de Sampa. Foram os meus anos de paixão pelo cinema de Wim Wenders, que adorava Ozu -- e meu mestrado seria em Ozu. Enfim, lembro bem de Talking Heads e menos de Bowie; Bowie me pegou mais quando apareceu nos anos setenta (e eu era adolescente) com um LP em que discutia a misoginia. Meus amigos e eu ficamos de boca aberta -- lembro bem. Era uma irreverência total.

                De qualquer modo, os anos oitenta foram os chamados anos cínicos, em contraposição a todo um romantismo dos anos 60, sendo que os setenta ficaram no meio, meio indecisos, aí no final da década surgiu a dance music ou melhor, disco music, que eu particularmente detestei porque só os mauricinhos e as patricinhas (que eram chamadas de cocotas e eles, de playboyzinhos) de onde eu estudava (FAAP) aderiram. Teve uma festa no diretório acadêmico, alguém levou as músicas do filme Embalos de Sábado à Noite e minha amiga Jane começou a dançar, tirando sarro, no meio da pista, enquanto eu não sabia se aderia ou não, porque tinha um ritmo alegre mas era meio babaca. Exigia habilidade na performance... e um talento para algo robotizado. Aliás, o próprio personagem do filme era um babaca, com aquele terninho careta, aquele cabelinho com gel, tudo o que detestávamos. Vieram os glitters, as meias com glitters, roupas que pareciam seda, mas eram de um tecido artificial, enfim, toda uma estética fake. Quanto mais artificial você fosse, mais in você estava. Nada de corpo solto, batas flutuantes, franjas, leveza, improvisação, criatividade. O negócio era pegar pesado. Nada de dança espontânea (que remetia a algo sonhador e mais ingênuo, porém a meu ver mais verdadeiro, genuíno), o negócio eram os passos ensaiados. Aí veio aquele azul gritante, bem forte (que se vê em Veludo Azul, de Lynch), as ombreiras, os cabelos artificiais -- tudo o que representasse FORMA. ("Spiralling", "Perfect Symmetry"?)

              Não quero dizer que a volta aos oitenta de Keane represente mau gosto. Mas me pergunto se não há aí um intuito de vendagem, de comércio, de show business muito forte. O que talvez descaracterize o estilo da banda. Pois se há uma coisa que eles sempre tiveram foi estilo. E quando eu vejo Justin Timberlake ganhando todos os troféus da mídia com sua música dançante, aqueles passinhos ensaiados em coreografia rígida, fico pensando no que está por trás desse novo Keane. E no que seus produtores pensaram sobre a boa e velha música de Keane.

                Parece que o terceiro álbum promete mais; em entrevistas falou-se de clima de cabaré e Marlene Dietrich; falou-se Beatles, talvez aquele de Revolution, pelo o que deu a entender um breve recorte de música colocado no site oficial. Enfim, é esperar. E ver se vale à pena continuar apostando na banda. Esperemos que sim...



Escrito por isa às 12h56
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                      De vez em quando, ou seja, a cada vinte ou dez anos -- se tivermos sorte -- acontece de assistirmos a um daqueles filmes que são capazes de nos deixar em êxtase, embasbacados e sai-se do cinema como se se dissesse a si mesmo: enfim, um gênio -- alguém que chegou à perfeição, que compreendeu tudo, todas as lições dos grandes mestres e, no entanto, fez um cinema singularíssimo. Este é o caso do cinema de Carlos Reygadas, com o seu magnífico Luz Silenciosa. Nenhum plano, nenhuma fotografia, nenhum gesto, nenhuma palavra, nada é desperdiçado -- nada sobra. É um cinema pensado, artesanal, elaboradíssimo, preciso, conciso. Em alguns momentos pensamos em Wenders, ora em Ozu, ora em Carl Dreyer. Mas é um cinema particularíssimo; vê-se o traço do gênio, como um Picasso, que se distingüe de um Van Gogh, de um Monet.

                  Talvez tenhamos que esperar alguns anos para que apareça outro filme igual ou semelhante à Luz Silenciosa. A mão segura do mexicano Carlos Reygadas nos oferece poesia em tempo integral. A maneira como trabalha o tempo na narrativa, dando ao espectador aquele tempo necessário para analisar uma bela fotografia (destituída de todo e qualquer pedantismo, de qualquer afetamento, diga-se e raramente afiada, de cortes bruscos, diga-se também; a câmera por vezes desliza e nos aproxima do que deve ser observado em detalhes: uma lágrima que ficou colada a uma face, um pêndulo de relógio que espelha a família reunida para a refeição, um par de casas gêmeas). Este é o tempo também de quem está longe do freje das grandes cidades, da dita civilização. Pois Johan, o personagem principal, pertence aos menonitas, protestantes que vieram para a América no século XVI, provenientes da Europa e se estabeleceram no México. Adeptos da vida simples e afeita ao que é natural, da religiosidade, da não comunição com outras comunidades, os menonitas do círculo de Johan não são radicais e já se permitem ter automóveis e uma fazenda mecanizada. E é num ambiente bucólico que a estória se passa e é deste ambiente que extraímos o que nos dá uma nostalgia de algo vivido, ainda que distante ou, até nem vivido: um rio límpido onde se pode nadar e tomar banho, grandes e verdes pastagens, campos floridos, o nascer do sol em todo o seu esplendor, as noites escuras e estreladas embaladas pelos uivos dos cães, o pio da coruja. E é nesta atmosfera que o adultério acontece, que algo se parte e vem tirar a paz e a tranqüilidade de uma família.

                  A paz é mais forte que o amor, diz uma personagem, a certa altura. Tocados pela culpa, os amantes querem se separar, mas não conseguem. No entanto, não há melodrama, aqui. Não há passionalidade. Esqueça os italianos, esqueça Almodóvar. Os encontros são calmos, pensados e a câmera insiste na imagem de um beijo apaixonado, porém de um erotismo sutil, quase seco -- um beijo longo e quase, se isto fosse possível, casto. É a força de tais imagens, quando nos são apresentados gestos mínimos, todos com grande força de intenção, que leva o espectador a analisar, mesmo contra sua vontade, o enquadramento dos elementos focados. É deste modo que o filme nos envolve: temos uma estória de amor, de traição, mas somos obrigados a nos embuir de um espírito distanciado, racional -- o que nos faz atentos. São personagens dignos, que procuram levar uma vida correta, firme e se espantam, sem desmesura, diante do novo, do inesperado -- e nós somos levados a compartilhar deste ritmo e daquele que o filme nos impõe.

                 Luz silenciosa é um filme magnífico, não há outro adjetivo para ele. E ganhou vários prêmios, entre eles o do júri no festival de Cannes em 2007 -- o que significa que ainda não estamos de todo entorpecidos pelos filmes de ação, aventura e blockbusters. Talvez a televisão e a internet ainda não tenham nos deixado burros demais, parafraseando uma canção dos Titãs... É um filme para encantar platéia de exigentes, embora a sua singularidade possivelmente comova todo e qualquer um que aprecie o bom cinema. Eu, saí nas nuvens e fiquei em estado de graça como há muito não me acontecia. As buzinas dos carros na Augusta soavam perto, mas longe de mim. Ainda bem que fez uma noite de Junho quente e estrelada. Perfeita para depois de um filme como este, raro presente.



Escrito por isa às 20h37
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QUE VIVA ROBERTO FREIRE!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

        QUE VIVA ROBERTO FREIRE!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

                QUE VIVA ROBERTO FREIRE!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

                                               E VIVA ROBERTO FREIRE

                                                                   EM NÓS

 



Escrito por isa às 22h40
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                                                      Por uma vida mais alternativa  

     

             Para terem uma idéia de como acordei hoje: é uma pena que eu tenha que escrever o que me vem à cabeça numa tela de computador e não nas areias virgens de uma praia deserta.

              Acordei com saudade do antes dos anos cínicos (e, por vezes, interessantes) que foram os oitenta. Embora o começo desta década, para mim que vivi o auge dos anos setenta, tenha sido o ápice, uma espécie de prolongamento daquela atmosfera 60/70, pois eu tinha uma turma enorme e nós nos dávamos bem e acampávamos e cozinhávamos na praia, lavávamos a louça no mar, tomávamos todos, com as crianças, banho de cachoeira pelados e sem malícia, usávamos roupas quaisquer, não usávamos salto ou maquilagem -- éramos muito à vontade como mandava a nova noção do que deveria ser aquele que estava optando pelo "alternativo": livre; sim, se possível o mais livre possível de tudo o que de perverso e castrador havia na sociedade. Alguns amigos não usavam cheque; eu até hoje não deixo o banco me cooptar e me levar a um grau máximo de sofisticação -- embuída dessa idéia de dizer não ao status via consumo abusivo. E para não dar o gostinho de vitória a essa sociedade orgasticamente consumista em que vivemos.

              Tudo bem, tudo mudou, porque a vida está em eterno movimento -- mas certamente, em muitas coisas,  para pior. Para começar, eu não tinha essa barriga -- ; eu comia menos, muito saudavelmente e caminhava mais -- fora que o Tai-Chi era sagrado... (Aliás, lembro agora, ter carro, para mim -- que não mais dirigia -- significava dizer um grande sim ao fetiche moderno da burguesia e ao sedentarismo). Se não podia nadar na praia, nadava no CAOC, que é um clube que fica atrás da Medicina na dr. Arnaldo, para alunos ou ex-alunos da USP. Eu larguei o curso de Letras quando minha mãe faleceu e tirei o diploma de jornalismo -- então estava na categoria de ex-estudante da USP. Depois voltei ao curso de Letras, já no tardio e cínicos anos oitenta, quase meados, quando fui colega de Arnaldo Antunes. Mas ele usava preto e tinha uma posição anárquica e evasiva nas eleições abertas; eu ainda usava minhas batas de algodão, sapatinho preto chinês e votava pela Libelu -- ter consciência política continuava sendo fundamental. Ah, a Libelu -- cá pra nós, era um pessoal de esquerda muito interessante, com exceção de algumas maçãs podres que conheci depois, indo dividir uma república.

              Sim, há socialistas de fachada -- como hoje em dia há petistas ou esquerdistas de fachada (há até direitistas que posam de esquerdistas, é só ver o horrível Manhattan Connection, no canal GNT). No dia-a-dia revelam-se egoístas, cruéis, exclusivistas, fascistas -- e infelizmente eu vivi isto e levei um tombo feio. Foi por volta de meados dos anos oitenta, para mim o início de uma forçada maturidade, uma passagem pela depressão e o começo de um estado fóbico (que me persegue até hoje) e, ainda, os olhos mais abertos para os anos cínicos.

              Depois da experiência frustrada de conviver com quem fingia ser alternativo, fui ter meu apê e reneguei tudo o que havia vivido. Mas, pelo meu temperamento, no fundo de mim aquela Isa otimista e que gosta de dividir o que tem e o que sabe, o que apreende da vida, permanecia em mim. Então, foi difícil, mas ao menos eu optei por estudar um cineasta que tem um cinema singelo, como Yasujiro Ozu. Mas havia Wenders, os jogos eletrônicos, Madonna (um ou dois enes?), os posudos ligados em modas efêmeras, nas grifes e tudo o mais. Disso tudo se salvava Wenders (e Coppola, claro e outros...), mas que também estava com um pé em algo com o qual eu não conseguia me identificar totalmente. Era uma melancolia que vinha substituir a nossa proposta de alegria (daquela turma pelada na praia, vendo estrelas no céu negro na noite sobre a areia deserta de alguma praia perdida no litoral brasileiro -- que, eu presumo, não existe mais), mas ainda assim tinha um quê de alternativo e resistência. Sid & Nancy. Eu não queria saber de Madonna (com dois enes?) ou Sid & Nancy; não queria saber dos punks e da violência. Eu ainda procurava aquela coisa romântica, idílica, mas nunca mais encontrei. Ou melhor, raramente voltei a encontrar. Fui estudar vídeo, cinema (fui largando a macrobiótica -- que, para mim, tem algo de estalinista -- e aderindo um pouco ao vegetarianismo) e comecei a 'namorar' com a Semiótica. Ainda fiz umas viagens para Mauá, para São Tomé das Letras, mas não era mais a mesma coisa (apesar de ter sido bom). Havia um poeta na minha antiga turma e aquilo era muito bom, porque dava para delirar, para ter uma troca de uma maneira interessante. Não havia os hippies porra-loucas, mas às vezes nós nos consentíamos ter atitudes porras-loucas, criativas, o que era bom.

              Em Mauá (RJ) havia todo um clima interessante, a começar das pousadas, daquele verde, do rio, as pedras, as pessoas em torno com ares de vida alternativa. Mas não me lembro de ter sido interessante porque eu me lembro de uma conversa em que defendia as idéias de esquerda e, não sei porquê, do Bivar (do Bivar!) e uma garota, publicitária, amiga de uma amiga (que fumava o tempo todo, mas não do bom, mas sim os horríveis cigarros aos quais tenho alergia até hoje), não conseguia engolir minhas idéias. Claro, ela tinha um pé forte na burguesia e bebia daqueles valores como o mais precioso dos néctares -- hoje deve ser pró PSDB. Nunca foi minha amiga, embora eu a encontrasse em festas, vez ou outra. Mas ela conseguiu estragar o pouco do que eu queria curtir quando fui para lá, para tentar reviver um pouco daquele clima alternativo com minha velha turma. Mas algo me dizia que não seria mais a mesma coisa.

              E hoje acordei com saudade dessa turma, de uma vida mais natural, sem muito livro, computador, museus e cinema -- vida urbana --, pelo o quê mais me interesso atualmente. Mas queria voltar um pouco no tempo e caminhar sobre areias virgens de uma praia, enfrentar o mar bravio, tomar sol de biquíni, peça que muito provavelmente não vou usar mais; comer um peixe frito na areia, como meus amigos e eu comíamos no nordeste -- Praia do Francês? Ah o forró da praia do Francês, o verdadeiro forró e não essa coisa brega televisiva... Foram tantos os lugares, nós com nossas mochilas às costas, dividindo um pê efe aqui e ali: Bahia, Pernambuco, Ceará... Novos acentos, nova cultura, novos ares. Bons tempos.

              Sei que nunca mais vou viver essa coisa lúdica, que ficou para trás. Mas acho que é a segunda ou terceira vez que falo disto neste blog. Porque algo em mim não se conforma de ter perdido esse tempo no tempo.

                          



Escrito por isa às 09h21
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       Quem sou eu : filha de paulistanos, nasci em Curitiba, passei minha infância e adolescência em Campinas, sou formada em Jornalismo pela FAAP e cursei Letras na Universidade de São Paulo. Sou escritora e jornalista e colaboro atualmente para o Le Monde Diplomatique na área de literatura. Na década de oitenta ganhei o prêmio literário do Paraná na categoria contos; trabalhei na UNICAMP com vídeo, colaborei para o extinto Folhetim da Folha de São Paulo, estudei cinema e tenho o mestrado em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo.                                                

 

                                              

 

                                                 E o Oscar vai para... Juno, a comédia?

 

                         Juno é um dos filmes mais superficiais e irresponsáveis dos últimos tempos. Antes de escrever aqui, ainda ouvi, hoje, as explicações do diretor em um canal da tevê a cabo e ele diz: eu não quis ser político; eu não quis julgar os atos da personagem Juno. Bem, eu não creio que é preciso ser uma pessoa com pendores políticos ou afeita a julgamentos para fazer um filme que seja interessante, que provoque o espectador, que deixe margem a que ele julgue os comportamentos dos personagens em questão. Mas, neste filme, nem essa margem o diretor nos dá, já que, em resumo, o filme nos diz: "tudo bem se você engravidar aos dezesseis anos; todos a apoiarão, você não passará por dificuldades, seus hormônios não vão entrar em ebulição, você não terá depressão, você levará tudo com humor e leveza e ainda poderá se desfazer do produto de um ato impensado ("the thing", é como ela se refere ao bebê) com muita tranqüilidade, com o aval da sociedade, dos pais, etc. Sem problemas. O que você está esperando? Você pode, sim, ser feliz nos nove meses de gravidez e depois que o bebê nascer e você se desfizer dele, também! Sem culpas, depressão, nada! Tudo vai ser conforme o seu quarto em cores cor-de-rosa".

                         É isto, em poucas palavras, o que nos diz o filme. E ele não deixa margem para que você duvide disto. Piadas, ditos inteligentes pela garota precocemente inteligente (a meu ver, uma "pentelhinha" desbocada que fala sem pensar e age sem pensar, extremamente impulsiva, até para um adolescente normal), atos justificados, segundo o filme, por pertencer a uma família que não deu certo e ter entrado em outra também problemática. Isto já justificaria o fato de ela ser inconseqüente, invasiva, sem noção de limites, sem noção da realidade, aparentemente sem sentimentos em relação à geração de um ser -- parece-nos dizer, o tempo todo, o filme.

                         O final romântico, com happy ending é o pior, a meu ver. Um final enganador. Mas é claro que gostamos de ver que ela superou a fase final da gravidez -- quando finalmente se depara com um problema e que nem é dela, mas do casal que adotará o filho em questão -- e que tudo, afinal, deu certo e lá vai Juno numa imagem romântica, livre e solta, livre agora de seu filho e das responsabilidades, passear de bicicleta com um violão sobre as costas -- ao encontro do agora namorado, o amigo que a engravidou, "meio sem saber".

                        Uma garota que vê a idéia de um filho como a de uma bola de futebol que foi parar na sua barriga... como é isto? Não, não é o seu comportamento que deve ser julgado, longe de mim filmes com julgamentos parciais e moralismos, mas ao menos a roteirista, e o diretor poderiam ter abordado de maneira mais realista e mais sensivelmente o que seria para uma garota ver-se grávida, da noite para o dia, de maneira inconseqüente. Mas não. O filme apenas faz corroborar tal inconseqüência -- de maneira achatada (como é típico de filmes norte-americanos), sem nuances, sem dar-nos opção de, como ela, nos comover com a idéia da tragédia. Tragédia? Que tragédia? Pois o filme é uma comédia. Errei o gênero do filme, ah, sim, Juno está classificado como comédia! Afinal, ter filhos não é como ter bolas de futebol que surgem do nada e por um nada, só uma transa, e se cravam em barrigas de garotas, em qualquer tempo? Risível, não? Época de superficialidades, irresponsabilidades, dessacralização da vida e, também, maus roteiristas e maus diretores de cinema... E lá vai o filme se candidatar ao Oscar? Pode? Pode. Não deveria, mas pode. Tempos de perversidade.



Escrito por isa às 11h32
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                       O que faltou em O Signo da Cidade, filme de Carlos Alberto Riccelli? Bem, faltou quase tudo. A cópia que vi estava escura e mal se enxergava, também por problemas de direção, o rosto da atriz que faz a suicida, mãe do rapaz protagonizado por Kim Riccelli -- seria a Irene Stefânia? Faltou pulso forte na direção, faltou enquadramento seguro de fotografia (chegando em casa, fui rever o excelente O Segredo de Vera Drake, de Mike Leigh, sobre o qual falei aqui quando do lançamento em São Paulo -- que diferença!); faltou noção de dramaticidade aplicada ao roteiro e, portanto, isto influiu na direção dos atores. No entanto o tema é bom, as temáticas que se entrelaçam também são boas -- com exceção, a meu ver, do forte pieguismo na cena da morte do enfermeiro e as circunstâncias em que ela se dá (a tal da coincidência)

                       Há algumas incongruências no roteiro (com as estórias muito bem entrelaçadas e bem equalizadas, em termos de ritmo, balanço do tempo) que beiram à ingenuidade: que mulher faria sexo após um aborto?Impossível. Mas está lá. Quanto à garota, interessante como foge dos padrões da beleza feminina convencional, assim como também a atendente do hospital que se despe para o velho que está à beira da morte. Este, um momento lírico que deixa transparecer a intenção original de filme sensível -- proposta que, infelizmente, não é levada a cabo pensando na fita como um todo.

                       Confesso que saí melancólica e deprimida, mas não porque o filme me tocou em alguns momentos (bonita a cena, aliás, em que a astróloga está num banco de jardim, conversando com o rapaz casado com quem tem um envolvimento). Saí deprimida porque os filmes dramáticos mal realizados, mesmo com picos de otimismo, quando não conseguem se elevar à categoria de uma obra interessante, de arte, geram insatisfação. Não é nada daquele desconforto interior que um filme realizado por grandes diretores provoca. Quando não há um espírito Beethoveniano ou Mozartiano, e pretendendo-se, ainda, ser eloqüente, sem cumpri-lo, fica uma sensação de vazio opressora.

                       Escrevo este texto na madrugada -- dormi mal, com muitas idéias na cabeça -- como sempre acontece quando vejo um filme e quero discutir sobre ele. Então fica aqui o registro do que poderia ter sido e não foi. Uma pena. Destaque para as partes cômicas dos garotos cantores no hospital e a mulher enganada pelo falsário. Destaque ainda para o papel da sempre boa atriz Denise Fraga, cujo personagem se consulta com a astróloga, dizendo que trai o marido. E, claro, para Juca de Oliveira, sempre dando o melhor de si. Destaque, ainda, para as panorâmicas sobre São Paulo, seu lado inóspito, desumano. No mais, saí também com a sensação de tempo perdido... Enfim, é um filme bem intencionado, mas mal realizado. Perde o cinema brasileiro, perdemos nós, também, espectadores, que estamos sempre apostando na valorização do mesmo.



Escrito por isa às 18h40
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                          Trabalhar um texto ou um filme, ou uma pintura -- enfim, o que quer que se pretenda uma obra de arte -- de uma maneira moderna, porém com profundidade, é algo raro e merece ser reverenciado. Aspectos como economia sígnica e sutileza são ainda mais raros.

                          Causa-me estranhamento que uma certa literatura grosseira esteja atualmente enfronhada no mercado. Autores colam-se aos personagens sobre os quais se debruçam: se eu falo de um açougueiro, meu tecer literário se parece com um açougueiro em sua brutalidade de lançar machados sobre as carnes, também.

                          A idéia que um autor como Marcelo Mirisola possa estar em evidência, causa-me arrepios. É como ver um Latino que rebola na tevê em poses que lembram um ato sexual mecânico e grosseiro. Com isto quero dizer que a literatura que se pretende popular, cai para o popularesco, o que é muito triste de se ver.

                         Como assinante da Folha de São Paulo há tantos anos e tendo sido colaboradora deste jornal, acho que merecia algo melhor neste dia de Natal. Mas não, brindam-me com a deselegância de um Marcelo Mirisola. E eu clamo pela elegância de uma Lygia Fagundes, uma Clarice Lispector -- mas é preciso dar espaço aos novos -- e que novos! Verdes e equivocados demais.

                         Não, Mirisola não é um Dalton Trevisan. Talvez com algum esforço ele chegue lá, já que o fato de estar na mídia talvez o faça uma pessoa melhor e com isto um autor mais entusiasmado e dedicado. Um pouco de fama pode ser gratificante e encorajador. Aliás, a propósito: nada contra a referência ao pop, acho a cultura pop muitíssimo bem-vinda, mas um ícone como Marilyn Monroe terá sempre maior consistência que um Mickey, por tudo o que está por trás do que eles verdadeiramente representam.

                        Levo sustos com a nova geração, mas é claro que há excelentes artistas no Brasil fazendo bons trabalhos. Mas, na área de literatura é desanimador. Parece-me que na ânsia de enveredar por caminhos mais fáceis, perdeu-se de vista toda uma tradição do próprio fazer literário. Outros, num outro lugar, pecam pelos excessos. Na Praia é uma excelente novela de Ian McEwan, como aparece em meu artigo no jornal para o qual colaboro e foi mesmo muito prazeroso ler um texto tão bem escrito e com uma economia narrativa tão precisa. Mas o seu Reparação ... está difícil de sair das primeiras páginas, embora seja aclamado pela crítica e, ao que consta, já virou filme.

                        Sou uma leitora ávida, desde tenra idade, mas é preciso que as obras sigam uma determinada vertente pra que eu as aprecie, como leitora e também criticamente -- ou seja, sou criteriosa. Não separo uma coisa da outra. Sei reconhecer, creio, uma obra simples mas honesta, como Os Fios da Fortuna, sobre o qual falei também em um artigo. Ao menos não se equivoca ao transpôr para o papel o registro de um cotidiano de personagens que impressionam pelas suas verdades.

                       Já os escritores apressadinhos e excessivamente ligados à cultura pop e que me parecem não entrar em contato com o que escrevem de uma maneira um pouco mais sagrada, no sentido de um certo tato para com a palavra e o tecido do texto... estes, porquê estão em evidência? Que interesses há por trás de quem os elege, abre-lhes caminho e deixam que sobressaiam em sua maneira pouca, parca, fácil... no chamado fazer literário?

                      Essa literatura para se ler no ônibus, como diria um amigo meu, até onde se apresentará como vencedora do preenchimento de um espaço que ainda está por merecer ser melhor ocupado? Contrapondo-se ao sentido de uma letra de Caetano Veloso, é como se alguns escritores de agora dissessem assim: se o mundo é um lixo, eu sou também.

                      Quando eu revejo um filme como Asas do Desejo, de Wim Wenders, sinto-me profundamente gratificada. E difícil ser moderno e culto, ser culto e ser econômico, filosofar e dar vazão ao banal, ser banal mas sutil -- tudo com elegância e apropriadamente. Mas são raros os cineastas como Wenders, assim como são raros os escritores como Clarice Lispector -- que soube muito bem como colocar um personagem como Macabéa em evidência, ao falar de um personagem desafortunado, pobre... sem ser pobre. Sem equivocar-se.

                      É preciso saber erguer a colher da taça. Nada de maneirismos, apenas com sutileza e senso de equilíbrio. Um pouco de educação e menos atitudes de açougueiro que aciona o seu machado sobre a carne crua, caem bem também. Aliás, nestes tempos do politicamente correto eu diria que precisamos de mais artesãos do que propriamente açougueiros, se é que me entendem... Muitos leitores agradeceriam. Em nome da boa literatura. Claro.



Escrito por isa às 17h05
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                                                         "Robert Rauschenberg, designer residente da Merce Cunningham Dance Company. Minutiae (1954) foi a sua primeira criação para a companhia, como cenário para o espectáculo de dança contemporânea da Cunningham-Cage". Procurando uma ilustração na internet, porque estou sem scanner, achei esta e estes dizeres, num blog que julguei anônimo. Gostei...

                                                              Sagrada Serpente Família

 

Caim e Abel? Ou Sandy e Júnior? A mulher no banco de ônibus atrás de mim diz para a outra que nem um, nem outro. Ela estava era pensando nos três irmãos, que nada tinham a ver com o filme Los Três Amigos, a famosa comédia na qual os três são bem unidos. Como aparentemente o são Sandy e Júnior -- vira e mexe, a gente lê algo sobre a importância da família, a importância da união entre irmãos e todo aquele doce, onde parece que o azedo não tem mesmo vez. Seria o avesso deste bolso a parte mais escondida -- sempre à sombra, por algum recalque, culpa ou, como popularmente se diz, travação?

Não, nem Caim, nem Abel e nem Sandy e Júnior. A mulher quer falar do número três, da trindade que não é santíssima. Nela, ocorre assim: o mais velho compete com o segundo, que veio depois e recebeu maior atenção dos pais e, este, com o caçula, que também veio depois e, por sua vez, também recebeu maior atenção. O caçula odeia os mais velhos que, por serem mais velhos, são cheios de privilégios e podem fazer o que ele não pode. Os mais velhos sabem disso e descontam sua raiva no caçula, fazendo-se de mais velhos e, portanto com mais privilégios e maior autoridade. O do meio nem é tão privilegiado quanto o caçula e, também, não é como o mais velho: não pode voltar tarde, porque ainda não tem idade para tal e também não recebe presente no dia das crianças, porque não tem idade para tal.

O mais velho, coitado, sobra tudo para ele e está sempre ouvindo: você, como o mais velho, deveria entender que... E a palavra dever pesa sobre o mais velho.

O caçula, que é saco de pancadas dos mais velhos, está sempre sob vigilância e sonha com o dia com que terá liberdade para ser alguém, além de ser o mais novo, que nada pode. Às vezes ele nem é fraco, mas os mais velhos fazem com que ele se sinta assim.

Para chamar a atenção dos pais, o mais velho ou é o exemplo da casa ou faz questão de ir mal na escola -- só assim obterá algum foco sobre a sua pessoa. 

O do meio está perdido, então ele vai para o seu lugar neutro, à sombra e pode se vingar dando uma banana para os pais, para o mais velho e para o caçula. Você tenta caçá-lo para uma festa em família e ele não dá as caras -- a não ser que seja um canceriano nato.

O caçula cansou de ser saco de pancadas e, apesar das famosas atenções dos pais, pesa-lhe a rejeição dos irmãos. Pode ser um fardo para toda a vida, a não ser que ele se espiritualize e resolva perdoar os mais velhos.

Acontece que todos terão que contar com uma coisa chamada inconsciente e todos ao longo da vida, plenos de rancores pela infância e adolescência competitivas, darão um jeito de serem o inferno, um do outro. Uma fofoca aqui, um comentário fora de hora ali, um puxãozinho sutil de tapete aqui e ali e pronto: teremos a trindade nada santa que justificará o título do filme italiano: Parente é serpente.

O que era manso, eleva a voz; o que sempre foi autoritário, eleva mais a voz ainda.

Os emails cordiais cessam, os telefones não tocam, os almoços não acontecem. Isto sem contar: sogros, avós, filhos, sobrinhos, cachorro, gato... todos no meio da estória. Mas como diria Billy Wilder: isto já é uma outra estória.

Mas acho que a mulher no banco de trás, no ônibus, atrás de mim, nunca ouviu falar do gênio Billy Wilder. Pena. Ela saberia que o humor pode ser uma boa saída. Ou vamos todos nos jogar do precipício?



Escrito por isa às 06h20
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                                                                                   Tempo e memória

 

                    Há algumas semanas atrás, quando estava confinada em casa por causa de uma forte gripe, resolvi, de computador novo, copiar textos e fotos de um fórum oficial de uma banda a qual sou muito ligada. Animei-me: todo aquele material e fotos enormes que meu antigo computador recusava abrir num tempo razoável, eu os teria, em downloads, de uma maneira muito mais rápida. 
                    Má surpresa: eis que me deparo com novos tópicos, novas discussões e um site totalmente reformulado. Não é uma ironia? Num tempo em que podemos armazenar dados com facilidade, que podemos ter um feito, um acontecimento em arte ou entretenimento revisto (sem falar na propaganda), não temos mais acesso a ele por uma simples e poderosa questão: estamos na era do descartável. (E é por isto que eu acho muito boa a idéia de reciclagem, exaustivamente anunciada e pouco explorada. Onde mora minha diarista, eles ainda não implantaram o sistema caseiro de reciclagem e não mantêm postos de recolhimento de material).

                 Eu me lembro claramente quando surgiu o tape e o quanto isto foi comemorado -- nada mais seria preciso ser feito ao vivo na tevê. Eu me lembro de estar no estúdio do antigo canal 9, onde hoje fica o Cultura Artística. Eu me lembro dos cenários, aqueles esqueletos maravilhosamente realistas, um ao lado do outro, numa seqüência que a mim me pareceu  interminável, e dos enormes elevadores que levava os materiais de cena para cima e para baixo, percorrendo os andares. Não sei se por minha pouca idade, mas me pareceram elevadores como os que eu havia visto num navio de guerra em Santos, que meu avô, ex marinheiro, nos levara um dia para conhecer. 


                 Aqui em Sâo Paulo, no canal 9, gravávamos uma peça infantil para um programa que tinha teatro "ao vivo". Mas na sala de montagem, quando vimos o recurso do tape numa pequena plataforma que parecia um bebedouro estreito, com uma telinha encaixada em cima, entendemos que a peça seria editada antes de levada ao ar. Ainda assim, poucos cortes eram feitos e ela foi passada quase na íntegra, por assim dizer. Os recursos de corte e montagens eram precários, ainda...

                 Hoje em dia você faz um filme, coloca na internet, no youtube e todo mundo vê as imagens que antes eram privilégios de empresas, enquanto material público, assim como o foram um dia os computadores (quando revejo Jeannie é um Gênio, o seriado predileto da minha infância, tenho vontade de rir dos enormes computadores e toda a idéia romântica que se tinha a respeito deles, enquanto autonomia total, sem a manipulação do homem).

                 Pois é, hoje em dia tudo é rápido -- aqui perto de casa havia uns cinco enormes prédios sendo construídos ao mesmo tempo; outro dia percorri parte dos locais a pé e três deles já estavam milagrosamente prontos. Adeus casinhas de jardinzinhos, charmosas, com seus gatos tomando sol nos muros...

                 Se você quiser um sofá igual ao que você vê em A Feiticeira ou Jeannie é um Gênio, apenas para citar dois seriados que, quando os vejo, me dão nostalgia daqueles tempos, você até encontrará nas lojas os mesmos sofás, com designs parecidos -- com esta volta (revival) a tudo que era dos anos 50/60. Mas o material --quanta diferença! Nada agora é feito para durar. Mesmo as roupas, os tecidos tinham boa qualidade e estes eram razoavelmente populares, porque raramente se comprava roupa pronta; sempre havia costureiras no seu bairro, disputando a freguesia e fazendo o seu melhor. Ou sua mãe, ela mesma, fazia as roupas da família toda -- com exceção das mais formais, para festas.

                 De qualquer modo, é mesmo uma ironia: hoje em dia temos acesso a tudo, mas nossos apartamentos apertados de classe média padrão não têm mais o espaço de antigamente para colocarmos os sofás de antigamente ou, na garagem, uma banheira, um daqueles enormes carros sólidos e de design interessante (os de agora, nenhum me chama a atenção, acho todos parecidos e boring... além de parecerem desmanchar a um simples toque. Eu simplesmente sou uma pessoa desencantada com os carros atuais... Quem viveu a era do Sinca Chambord, do Galaxy, não engole essas tralhas de agora, creio).

                 Sim, é mesmo uma ironia, temos tudo e se não formos rápidos, não teremos nada, porque não se tem interesse em preservar mais nada. Aquele material da banda ao qual eu queria ter acesso, creio que jamais o verei, novamente. Claro que quando você troca informação individualmente com as pessoas, você consegue garimpar uma coisa aqui e ali. Mas não é a mesma coisa. Em termos de comunidade, a memória não é preservada. O novo tem que rapidamente dar lugar ao velho. Mesmo na internet como um todo, lugar que sabemos poder armazenar infinito material, parece não haver interesse.

                Nas minhas comunidades no orkut, vez ou outra pedem-me que troque a foto que as ilustram. Eu gosto de manter uma foto só, porque acho que isto dá uma cara à comunidade que a torna especial, única, com personalidade. Mas não, as pessoas querem o novo. O mesmo, o registro do que permanece as aborrecem com muita facilidade. Seria como ter que mudar os móveis todos os anos de uma casa e pintá-la também todos os anos. Talvez eu seja muito conservadora, neste sentido. Por mim, se eu puder, mantenho todos os móveis, desde que sólidos e interessantes, por muito tempo num mesmo lugar e numa única casa... Particularmente, eu acho que nosso cérebro necessita disto, deste foco. Mas aí eu já teria que começar um novo texto, falando dos tempos atuais, da importância da memória, de neurônios e sinapses, da necessidade de preservação e do mal de Alzheimer e de como perdemos o foco e a noção do que é sólido, do que deveria ser duradouro e prioritário.

                O certo é que nossos carros estão cada vez mais velozes e nossas vidas com um caráter cada vez mais etéreo, como se nada ficasse ou tivesse grande sentido, enquanto efetiva representação. Efetiva, afetiva -- para fazer um bobo jogo de palavras. Em tempo: acho que a memória só tem sentido enquanto renovação de sentido e não objeto de lamuriação do tipo, ai como no meu tempo tudo era melhor... Nada disto. Isto a gente deixa para os eternos reclamantes que, vivendo em qualquer tempo, em outros a vida sempre foi melhor, porque a galinha do vizinho, vocês sabem, sempre é a mais gorda para os pessimistas .



Escrito por isa às 10h37
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                     Era uma pacata rua de cidade do interior, mas eu me lembro de meu pai reclamando do motor do carro do vizinho, logo cedo, ou mesmo do barulho da posteriormente adquirida lambreta. Não muito longe, de um lugar mais elevado, eu podia ouvir nos fins de semana as festas que um grupo pequeno de famílias, muito pobres, faziam. Nós também dávamos algumas festas, mas eram raras. Nossos fins de semana eram gastando energia no clube, visitando um e outro e, depois, com a tevê em casa, assistindo a programas noturnos. O barulho não fazia parte das nossas vidas, embora morássemos em uma avenida -- que depois seria asfaltada e que hoje é bem movimentada, com comércio e tudo o mais, segundo contam os amigos daquela época. Eu ainda não tive coragem de voltar a Campinas e ver o que restou da minha casa. De qualquer modo, o barulho sempre me acompanhou e sempre foi um tormento de espírito.


                 Eu dividia o quarto com minha irmã e, quando ela chegava à noite da rua, sintonizava baixinho uma estação de música clássica, que não sei se era a Eldorado. Acho que sim. De qualquer modo, depois que ela deitava e dormia, eu ficava no escuro pensando na minha próxima estória para o livro que eu dividia com uma amiga. Nele, escrevíamos estórias de uma turma, que eram Os Onze Voadores. Isto, na pré-adolescência. Porque na infância eu me lembro de pesadelos terríveis e acordar suando e me lembro muito bem da minha mãe trocando o meu pijama molhado por um limpinho. 
                Demorei a deixar o quarto de meus pais e dormir com minha irmã. Lembro-me de visitas vindo em casa e dizendo, mas ela é muito grande para dormir no mesmo quarto com vocês! Eu tinha um enorme berço e me lembro que meus pais colocavam um cabide de pé para que a porta ficasse entreaberta. Mas isto eu vim a saber depois, porque antes de saber que era um cabide, eu costumava ficar espreitando aquela coisa com chifres que ficava naquela nesga de luz que vinha da porta. Aquilo me paralisava. Eu não chamava por nenhum dos meus pais. Eu ficava paralisada na cama vendo aquele monstro que me espreitava, o tempo todo. Quando eu finalmente pegava no sono, logo acordava, com pesadelos. 
                Já o barulho do trem logo mais à frente da minha casa jamais me incomodou. Até hoje adoro trens e filmes com trens; meu grande amigo e amor de infância possuía um trenzinho elétrico montado em uma grande mesa no canto da sala; era a maquininha e seus vagões em carreira passando em meio a uma cidade, com pessoas, vendinhas e tudo o mais. Eu adorava aquele trenzinho. Gostei também de ver trens, à época do meu curso de pós, nos filmes de Ozu.


              Quando no início dos anos setenta -- eu já adolescente -- minha família mudou para uma outra rua, mas no mesmo bairro, eu me lembro de poucas ocorrências que me fizessem acordar no meio da noite: minha gata Cléo vinha no parapeito da minha janela miar e eu a colocava para dentro. Uma vez tentaram roubar o Chevrolet do meu pai -- uma banheirona verde-musgo, que ficava estacionada em frente à casa. Tentativas de roubo, assim, eram pouco comuns. Mas eu me lembro que abri a janela do quarto e ouvi os passos do gatuno se afastando. Era assim; muito pouca gente andava armada, mesmo para roubar.


              Por quê hoje me veio tudo isto à mente? Porque a avó do garotinho que mora em frente ao meu apartamento está aí, de visita. E ela fala pelos cotovelos e eu encostei o meu rádio, no qual ouço de manhã a Kiss FM, bem na porta de entrada, para que pudesse ouvir música e não o seu incessante tagarelar. Não sei de onde ela tira tanto assunto para falar com a empregada, a filha, o neto e o cunhado. Só ela fala. É absurdamente irritante. Mas os vizinhos do lado dela, que são três adolescentes também barulhentos, com uma mãe absurdamente histérica, não fazem caso. Claro que não. Ali, precisaria de um concurso para saber quem seria o vencedor. 


              Estou tentando lembrar quando foi a vez que não sofri com vizinhos (como o que mora acima de mim e adora um argh pagode) e afins. Acho que somente quando morava com  meu irmão no Paraíso, quando era aluna do Equipe. Eu ia prestar vestibular e estudava oito horas por dia. Eu não podia falhar. Já havia perdido dois vestibulares, um por conta da minha paixão pelo teatro e outra por conta de notícia de doente na família. Era minha terceira tentativa e eu sabia que teria que ser daquela vez. De qualquer modo, não me lembro de ser incomodada por vizinhos, àquela época. Muito pelo contrário; adorava no final da tarde colocar meus poucos LPs na vitrola; os que eu tinha em São Paulo, porque a minha coleção de Beatles havia ficado no interior. E não era ainda época de revivals. Só fui ouvir Beatles com afinco novamente lá por meados dos anos 80, para apresentá-lo devidamente a um amigo, que gostava de música.


              Na intenção de me mudar o ano que vem, fico pensando como fugir de vizinhos e ruas barulhentas. Mas não consigo vislumbrar muitas alternativas, nessa Sampa caótica. Se ao menos eu fosse alguém que não gostasse de literatura e filmes de arte, de música clássica! De escrever. Mas não, muitas das minhas atividades requerem silêncio e está impossível.
              Meu ex-professor Décio Pignatari foi morar na minha cidade natal, Curitiba. Já pensei nisso, em meados dos anos noventa. Mas deixar essa cidade aqui é muito difícil. Ou melhor, deixar a vida cultural desta cidade aqui é realmente muito, muito difícil.
              Sem saídas.



Escrito por isa às 10h00
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                Comprei um pequeno mas significativo livro que fala de algumas teorias lacanianas e freudianas sobre a condição do feminino e do masculino. Em meio à leitura, lembrei-me de um papo entre amigas sobre a rápida capacidade, em geral, dos homens de se recobrarem de uma desilusão amorosa, em oposição ao que acontece com a mulher. E hoje veio-me que isto pode residir no fato de que a mulher, quando se desliga do seu par amoroso, perde mais que um companheiro, mas alguém em quem ela projetou um filho ou a vontade de ter um filho. Há portanto uma dupla perda e, muito mais funda, uterina mesmo. Há mulheres mais maternais e outras, menos. As mais maternais não são necessariamente chatas e grudentas, mas atenciosas e ternas. Eu acho muito bonito a ternura num relacionamento amoroso.

                Lembro-me que conheci um casal, numa festa, que se tratava a pontapés. Pergunto-me até hoje o que é que fazia com que ficassem juntos, naquele eterno maltratar (encontrei-os anos mais tarde e até já tiveram filhos). Claro que pactos de relacionamentos podem vir baseados em respeito ou, em desrespeito. E isto, é péssimo. Há fases, que considero relativamente normais, de uma certa brutalidade, indiferença, até mesmo de desrespeito. Mas quando isso dura, que tal dizer bye bye? Não dizem. (Meu primeiro romance, aliás, fala disto). Mas há também aqueles, e eu me incluo entre estes, que têm tanto medo da rejeição futura, que nem arrisca um começo, se vislumbra que proximamente pode ocorrer o desrespeito. Talvez porque gato escaldado... já sabem. 


                Não sei o que é. Tenho visto gente na rua que se trata bem, mas tenho visto muita coisa estranha, gente que vai dizendo duramente o que pensa e sente diretamente na cara do outro, sem levar em conta a sensibilidade do outro, o seu espaço e nem a possível degradação de uma amizade ou um amor. Essas pessoas, chamadas de francas demais ou até mesmo brutas, quando a coisa aperta, me assustam. Eu me pergunto que tipo de educação tiveram em casa, onde os limites do outro não era respeitado. Certo, uma briga aqui e ali é saudável, mas digamos que tudo isto, se possível, deva ser feito com muita civilidade. Temos uma cabeça para pensar, articular a linguagem, fazer o bom uso das palavras. Porque algumas coisas ditas não têm retorno. Li algo assim numa entrevista do Paul McCartney, que, ao que parece, teve a infeliz idéia de se casar com uma barraqueira. Enfim, ninguém está livre desse infortúnio. Já passei por isso, sei como é. Você não vê mais no outro aquela pessoa terna, que um dia te trouxe presentes com um sorriso, ou comprou um disco pensando em você, ou ligou várias vezes ao dia pra saber como você estava. Não. O que se tem é o avesso da pessoa, que de anjo passa a ter chifres. Tudo em nome de algo que ninguém mais sabe nomear o que é. Triste. Como eu odeio barracos e gente histérica, porque é o meu jeito de ser e ninguém precisa ser como eu, assim como ferem os ouvidos qualquer fala de João Gordo ou de uma música heavy metal, funk, rap... passo longe. Isto é, tento passar longe. Ás vezes a vida apronta armadilhas, ainda que tentemos ser inteligentes, sagazes, espertos. Enfim... 


                Falando em indelicadezas, o que é aquilo, a assistente de direção que aparece no filme Santiago? Aquilo é um soldado dando coturnadas travestida de uma diretora. Estragou o filme. Filme, aliás, que poderia ser bem melhor. Ainda acho que trataram o ex-mordomo Santiago como, veja que ser exótico que trabalhou lá em casa e que virou personagem do meu filme. Algo assim. Com todo o respeito ao diretor, que se propôs, aliás, a retrabalhar o filme, anos depois de ter sido rodado. Pena que Santiago não viveu para ver o trabalho pronto. Ou talvez tenha sido melhor, já que sua delicadeza e vontade de expansão foram duramente castradas por tal diretora. E até por João Salles que, no próprio filme faz o mea culpa. Mas eu esperava mais. Não é o caso de O Pequeno Italiano, belo filme russo. Perfeito. Recomendo. Recomendo também o último dvd de De Sica, apesar da tradução horrível do título (A Culpa dos Pais), que rouba toda a ambigüidade do filme e da sinopse que aparece errada, na contracapa (há apenas uma criança, no filme e não um casal deles). Grosseiramente errada. Eu já trabalhei com sinopse de filmes para tapes (vhs) e via tais trabalhos com cuidado do começo ao fim, para não cometer gafes. Mesmo quando eram horríveis. Pois esta pessoa nem ao menos um filme de De Sica foi capaz de avaliar! Terrível. Fora os problemas gramaticais, como os acentos impróprios em certas palavras.


                E hoje esse blog ficou com cara de blog... Bem dispersivo. Enfim, foi o que se pôde fazer, em meio a uma recaída de forte gripe. É isto...  Ah, a ilustração é porque, além de outras coisas, adoro um bom folhetinzão (eu disse BOM) e, sendo assim, adoro Gone With the Wind. Expressão a qual uso para me despedir, aliás, de algumas conversas online. Meus amigos fãs de Keane sabem do que estou falando...



Escrito por isa às 13h15
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            Este post abaixo era para ter sido postado há dois atrás, mas como a conexão estava lenta, vai aqui, hoje e justamente hoje eu teria algo a dizer sobre as (inesperadas e sentidas) mortes de BERGMAN e ANTONIONI, mas fica para depois...

 

                       Ouço o sino da igreja de meu bairro, que toca, chamando os fiéis. Nessa manhã de domingo de muito frio e algum silêncio, o som soa harmonioso e até romântico, nostálgico. É bom algo assim, depois da euforia da noite anterior quando os vizinhos comemoraram (e eu, sem barulho) o ouro dos meninos do vôlei, em vitória sobre os EUA nos jogos do Pan. Agora o sol vem, tímido e escrevo pensando nessa coisa de pessoas ouvindo o sino da igreja e se apressando em frente ao espelho para mais uma missa, mais um ritual litúrgico em alguma igreja, em algum lugar, vendo pessoas conhecidas e até amigas, num encontro que pode ou deveria ser fraternal. Nada mal. Digo, as igrejas poderiam ser um bom ponto de encontro aos domingos, ao invés de irmos na padaria da esquina tomar uma média com pão com manteiga e um café para arrebatar, como eu fazia quando morava na Vila Madalena. E via meus amigos, conhecidos e às vezes fazia uma amizade repentina conversando com alguém interessante ao meu lado. Ali, em pé, no balcão.

                      Mas eu dizia que as igrejas poderiam ser um bom ponto de encontro aos domingos, não fosse o falatório vazio ou ranzinza de alguns padres. Ao menos, é assim que os vejo.

                     Em Paris, fiquei num hotelzinho barato (e famoso, mas decadente -- por isso, barato; sem elevador, sem conforto, apenas uma história com artistas que lá se hospedaram, devido ao seu ponto estratégico, no passado) no Quartier Latin, o bairro dos estudantes. A uma quadra da Catedral de Notre Dame e na mesma rua da igreja Saint-Julien-Le Pauvre. Esta igreja, a uns cinco metros do meu hotel, possuía uma placa, na entrada, nos fins de semana, que me intrigava -- eu sempre caminhava na calçada oposta. Num sábado, ou domingo, ao cair da tarde, vi umas pessoas diferentes entrando meio que em grupos na tal igrejinha, que eu já conhecera por dentro e achara admiravelmente aconchegante, daquelas boas para se fugir do estresse das grandes cidades (eu adoro me refugiar numa igreja quando estou viajando -- quando viajava, melhor dizendo, porque tem sido difícil...). Finalmente resolvi atravessar a rua e ler a tal placa. Era o anúncio de um concerto de música clássica -- creio que era um quarteto, algo assim, com a igreja toda iluminada por velas -- era o que dizia a placa. Fiquei tomada por uma excitação inacreditável, tive comichões pelo corpo, arrepios de prazer e me pareceu algo muito melhor do que saborear o melhor dos chocolates suíços. O final dessa estória é decepcionante, por que na semana seguinte (fiquei dezessete em Paris) eu simplesmente esqueci de tal evento, o que me levou a uma leve tristeza no dia posterior.

                     O fato é que por toda Paris você ouve, numa determinada hora, o som dos sinos das igrejas chamando os fiéis, seja para uma missa, seja para ouvir música. Não seria maravilhoso ser um fiel particpante de um lugar onde houvesse música e ao invés de padres chatos rezando a missa, padres que tivessem estudado psicologia, filosofia, com apreço pela música e pela literatura, pelas artes, enfim, e que pudessem dar uma espécie de palestra e em seguida dialogar conosco? Nem que a base disto tudo fosse religião, que em si não é algo terrível, mas que foi deturpada ao longo dos tempos? Seria uma espécie de Café Filosófico. Ao que parece, em algumas igrejas de Paris, assim é. Por que essa "moda" não pode pegar aqui? Eu seria, sim, uma fiel -- porque além do mais, gosto dos ícones católicos, apesar de não entender nada de bíblia ou religião. Mas a coisa me atrai. Sim, eu seria, definitivamente, se houvesse esse encontro entre arte, filosofia e religião, uma fiel freqüentadora de igreja nos fins de semana.



Escrito por isa às 12h00
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                        Com raríssimas exceções, histórias em quadrinho em geral me parecem uma roubada. Digo, uma roubada da maturidade. Mas vamos por partes. Quando eu era criança, eu lia alguma coisa de agaquês, que a gente chamava de revistinha. Mãe, se for na feira, compra uma revistinha pra mim? E ela trazia Bolinha, Luluzinha, Gasparzinho, Pato Donald. Ou, ou, ou; nada dessa mania de agora de encher os filhos de mimos, compulsivamente. Era uma revistinha por semana, que eu saboreava aos poucos e depois relia e relia e relia, pegando os detalhes dos desenhos. Pois bem, eu era criança, fazia sentido ler Monteiro Lobato e revistinhas. Já em criança tomei contato com o cinema, primeiro de uma forma leve, depois vendo os clássicos e revolucionários. Era adolescente quando vi 2001, Uma Odísséia no Espaço. Portanto, quando fui ver Fernão Capelo gaivota (com aquele apelo de auto-ajuda tão em voga hoje em dia) e o medíocre filme de sustinhos, Tubarão, eles não me disseram nada. Deste último, saí com raiva do cinema. Eu sabia que estavam me enganando. No entanto, os blockbusters entraram de sola no cinema mundial e não querem mais largar o nosso pé, subestimando nossa inteligência. (A mediocridade impera).

                  O mesmo acontece com os agaquês. O que pertencia à nossa infância, agora pertence ao mundo dos adultos, que teimam em não crescer, por que crescer é perigoso. A indústria do medo se solidificou. Pais preferem ver seus filhos nos tais argh videogames e lendo agaquês, na segurança de seus quartinhos de solteiros, embora muitos já tenham idade para casar e constituir família (não que eu seja contra o mundo dos solteiros, já que fui mais solteira na vida que propriamente casada), ou seja, partir para a conquista do mundo adulto e da maturidade. Maturidade -- ao invés de experiência, senso de julgamento, discernimento, etc. virou sinônimo de envelhecimento. Claro, há que permanecer o humor, pois a falta de humor numa pessoa é sinal de pouca inteligência, a meu ver, ou de envelhecimento precoce. Particularmente, não gosto de gente sem senso de humor. Mas o humor e a leveza não precisam vir só dos agaquês ou da leitura de Harry Potter, podem vir de um filme de Woody Allen, por exemplo, que une dois ingredientes interessantes básicos, inteligência e humor.

                   Hoje há uma matéria na Folha falando dessa questão, a da falta de maturidade dos nossos jovens e, ao mesmo tempo, a extensa matéria de capa da Ilustrada é nada menos que... Ratatouille, um desenho animado. Jovens, assim como adolescentes e crianças, adoram desenhos animados. Anteontem mesmo num restaurante vegetariano na Vila Madalena vi entrar um grupo de garotas comentando Ratatouille: tem que ver, tem que ver! Elas tinham por volta de 20, 25 anos. Claro que esses desenhos animados são bem feitos. Claro que invadiram as tevês, tipo Simpsons (que eu nunca consegui assistir a um episódio inteiro). Mas para mim também é claro que grandes e importantes questões na área da psicologia, por exemplo, estão relegadas a último plano. Eu me pergunto como esses jovens vão educar seus filhos, isto é, já o fazem de maneira contraditória -- a própria falta de limites, é um sinal das suas limitações e imaturidade. Tratam os filhos como coleguinhas de escola, permitindo-se serem tratados de igual para igual, o que é um equívoco. Ninguém é a favor da repressão e do autoritarismo, mas a imaturidade dos pais é algo a considerar, nos dias atuais.

                   Em tempo: devemos todos ver Ratatouille, deve ser um bom filme, mas que tal passar na locadora e pegar aquele bom e velho Bergman que fala de relacionamentos e nos instiga a perceber o homem como um ser psíquico, por exemplo -- o que nos levaria a ler Freud, Lacan e amadurecer um pouco nessa nossa vidinha protegida de eternas crianças que a mídia elegeu para nos ofertar? O caminho mais fácil, nem sempre é o mais interessante, por que não haverá surpresas, mistérios e aventuras. Nem crescimento, diga-se de passagem.



Escrito por isa às 11h45
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